É uma situação comum no consultório. Os pais chegam preocupados depois de ouvir que a criança está com “a amígdala muito grande”. Em muitos casos, essa informação vem acompanhada da dúvida que costuma aparecer logo em seguida: “Será que vai precisar operar?”
A resposta quase nunca depende apenas do tamanho da amígdala.
Embora a hipertrofia das amígdalas seja um achado frequente na infância, a decisão entre acompanhar, tratar ou indicar cirurgia leva em conta muito mais do que o exame da garganta. O sono, a respiração, a frequência de infecções e o impacto desses sintomas na rotina da criança costumam ser muito mais importantes do que um número.
Como é avaliado o tamanho das amígdalas
Durante o exame físico, o otorrinolaringologista utiliza uma classificação conhecida como escala de Brodsky para descrever o tamanho das amígdalas. Ela é baseada na inspeção da garganta e indica quanto espaço da orofaringe está sendo ocupado pelo tecido amigdaliano.
A classificação é a seguinte:
- Grau 0: amígdalas ausentes ou não visíveis além da fossa tonsilar.
- Grau 1: ocupam até 25% do espaço da orofaringe.
- Grau 2: ocupam entre 25% e 50%.
- Grau 3: ocupam entre 50% e 75%.
- Grau 4: ocupam mais de 75% do espaço e podem se tocar na linha média, formando o aspecto conhecido como kissing tonsils.
Essa escala ajuda a padronizar o exame e facilita a comunicação entre os profissionais. Ainda assim, ela representa apenas uma descrição do que foi observado naquele momento.
O grau da amígdala, isoladamente, não determina a gravidade do quadro nem define a necessidade de cirurgia.
Nem sempre uma amígdala grande causa problemas
É perfeitamente possível encontrar crianças com amígdalas grau 3 ou até grau 4 que respiram bem, dormem tranquilamente e nunca tiveram infecções frequentes.
Da mesma forma, uma criança com amígdalas menores pode apresentar ronco intenso, sono agitado ou pausas respiratórias importantes.
Isso acontece porque a obstrução da via aérea depende de vários fatores, como o formato da garganta, o tamanho das adenoides, a anatomia da face e até a forma como a musculatura da região se comporta durante o sono.
Por isso, avaliar apenas o tamanho da amígdala pode levar a conclusões equivocadas.
O que realmente orienta a avaliação
Quando uma criança chega ao consultório com amígdalas aumentadas, a conversa costuma começar pelos sintomas.
Algumas perguntas ajudam a entender se aquele aumento está realmente causando repercussões.
A criança ronca quase todas as noites?
Respira pela boca durante o dia?
O sono é agitado?
Existem pausas na respiração enquanto dorme?
Ela acorda cansada, apresenta sonolência excessiva, dificuldade de concentração ou irritabilidade?
As infecções de garganta acontecem com frequência suficiente para comprometer a escola, a alimentação ou a rotina da família?
As respostas a essas perguntas costumam ser mais importantes do que o próprio grau descrito no exame.
Quando outros exames são necessários
O exame da garganta permite visualizar apenas as amígdalas palatinas. Já a adenóide fica localizada atrás do nariz e não pode ser vista dessa forma.
Quando existe obstrução nasal persistente, roncos ou suspeita de que a adenóide também esteja contribuindo para o problema, a nasofibroscopia pode complementar a avaliação.
Realizado em consultório com um aparelho fino e flexível, o exame permite observar diretamente a cavidade nasal, a nasofaringe e o grau de obstrução provocado pela adenóide.
Na maioria das vezes, o procedimento é rápido, embora a tolerância varia conforme a idade e a colaboração da criança.
Vale lembrar que a nasofibroscopia não substitui a polissonografia quando existe suspeita de apneia obstrutiva do sono. Em algumas situações, principalmente quando há dúvida diagnóstica ou quando os sintomas não correspondem aos achados do exame físico, a polissonografia pode ser indicada para avaliar o sono de forma mais detalhada.
Quando a cirurgia pode ser indicada
A cirurgia para retirada das amígdalas, chamada amigdalectomia, não é indicada apenas porque elas são grandes.
Ela pode ser considerada quando existe obstrução importante da via aérea, distúrbios respiratórios do sono, apneia obstrutiva documentada ou infecções recorrentes que atendam aos critérios clínicos estabelecidos.
Nos casos de infecções repetidas, também são avaliados a frequência dos episódios, sua documentação, a intensidade dos sintomas e o impacto na qualidade de vida da criança.
Mesmo diante desses critérios, a decisão continua sendo individualizada. Idade, exame físico, doenças associadas e expectativas da família fazem parte da conversa antes de qualquer indicação cirúrgica.
Como todo procedimento, a amigdalectomia apresenta benefícios, limitações e possíveis riscos, que devem ser discutidos durante a consulta.
O que os pais precisam saber
Receber a informação de que a criança está com as amígdalas aumentadas costuma gerar preocupação. Isso é compreensível.
Mas, na prática, o tamanho das amígdalas é apenas um dos elementos considerados na avaliação.
Mais importante do que saber se elas são grau 2, 3 ou 4 é entender como a criança respira, como ela dorme, quantas infecções apresenta ao longo do ano e de que forma tudo isso interfere no seu desenvolvimento e na sua qualidade de vida.
É essa análise completa que permite decidir se o melhor caminho é apenas acompanhar, realizar tratamento clínico ou considerar a cirurgia.
Dra. Lorena Lima Almagro
MÉDICA | CRM-SP 207218
Otorrinolaringologista | RQE-SP 124325
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